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50 ANOS DO CLUBE DA ESQUINA

Considerado um dos maiores clássicos da Música Popular Brasileira, o álbum duplo Clube da Esquina completa 50 anos de seu lançamento, colecionando fãs, influenciando gerações e fazendo escola mundo afora

O que era para ser apenas um encontro musical entre amigos deu origem a  um dos discos mais cultuados no Brasil e no mundo, evidenciando o talento de uma geração de mineiros que fizeram e mudaram a história da MPB.

Tudo isso começou no distante ano de 1972, quando Milton Nascimento – já com consolidada carreira artística – convidou o jovem e até então desconhecido compositor Lô Borges para dividir um álbum duplo, com composições próprias de ambos e parcerias. O álbum duplo, algo praticamente inédito na discografia brasileira da época, teria o sugestivo nome de Clube da Esquina, em referência à turma de adolescentes do bairro de Santa Tereza, onde a família Borges morava e reunia amigos para tocar violão em suas ruas e esquinas. Essa turma tinha em Lô Borges a principal referência, além de seus irmãos, que buscavam uma nova forma de tocar e compor suas canções. Junto a Lô Borges, outro jovem assumiria protagonismo: Beto Guedes. Ele foi vizinho da família Borges, quando ainda moravam no centro de Belo Horizonte. Lá, costumavam tocar juntos as canções do Beatles. 

Foi desse encontro de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e dos letristas Márcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos que o disco Clube da Esquina ganhou forma, tendo nas parcerias dos amigos de música e geração, Toninho Horta, Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Nelson Angelo e Tavito, sua contribuição fundamental. O disco contou ainda com as participações dos músicos Robertinho Silva, Rubinho e Noveli, e da cantora Alaíde Costa. 

 

O disco

O Clube não foi uma banda criada; o encontro de um grupo de amigos formado ao longo dos anos, pelas ruas de Belo Horizonte, é o que o torna ainda mais precioso. Muitos membros do grupo já possuíam uma atividade musical anterior ao disco de 1972.

O Clube da Esquina ficou marcado principalmente por suas harmonias, fruto da genialidade de Milton Nascimento e Lô Borges. As letras também fizeram escola, ao buscar leveza em um tempo de ditadura e perseguições políticas. Os arranjos, muitos de Wagner Tiso, expandiram o horizonte das músicas para uma sonoridade próxima à da música erudita e da música de concerto, ao passo que a participação de Nivaldo Ornelas e Toninho Horta reforçaram influências jazzísticas com suas proposições harmônicas e performances de improviso. Já Lô e Beto Guedes expressaram de modo mais claro uma forte influência dos Beatles e do rock. Dessa união de estilos e influências, o Clube da Esquina foi se consolidando, fugindo de qualquer conceito e paradigma existente na MPB.

 

O Legado

O Clube da Esquina ficou marcado também por sua poética. Até então, no Brasil, as canções cantavam a mulher sob uma perspectiva machista, como no samba-canção, ou idealizada, como na Bossa Nova. Já o Clube simplesmente exaltava a mulher de forma respeitosa e despretensiosa, sem estereótipos, estigma ou idealização. Cantava apenas a figura feminina em sua essência, aquela que trazia um girassol no cabelo e buscava um caminho ensolarado para caminhar. Vale lembrar o inusitado verso: “Se você quiser eu danço com você no pó da estrada”, abordagem inédita na música brasileira até então. 

Cantaram a América Latina sem alarde – antes do Clube, não tínhamos essa sonoridade latina em nossa música; convidaram a mulher negra e periférica para dividir protagonismo e palco; falaram de índios e dos rios, singrando o Brasil profundo em uma canoa etérea; cantaram o amor sem preconceitos, dizendo que toda forma de amor vale a pena, toda forma de amor valerá; foram modernos e universais cantando os sinos das igrejas e seus currais. Fundaram uma escola tendo a intuição como inspiração; moveram o mundo sem romper as montanhas. Isso tudo antes de todos, sem reivindicar paternidade ou ostentar idealismo libertário. A música pela música. A poesia na poesia, aquela que nasce e morre em seu próprio mistério. 

O Clube da Esquina é além de seus atores, não cabe em uma cidade, é patrimônio planetário, figura nas páginas de glória do templo da música universal. O Clube da Esquina é do mundo, é Minas Gerais.