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Cultura

ÓPERA ALEIJADINHO ESTREIA EM OURO PRETO

O adro da Igreja de São Francisco de Assis, obra prima de Aleijadinho e relíquia do Barroco mineiro, foi palco da estreia da Ópera Aleijadinho, a maior produção das artes cênicas mineiras nos últimos anos

O cenário para a estreia da Ópera Aleijadinho, espetáculo da Fundação Clóvis Salgado, não poderia ser outro senão o centro histórico da cidade monumento de Ouro Preto, Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO e terra natal de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, um dos maiores artistas brasileiros em todos os tempos e eleito Patrono das Artes do Brasil.

Nascido e criado em Ouro Preto, Aleijadinho deixou na cidade barroca mineira seu maior legado, além de uma vida marcada por fatos inusitados e muitos mistérios.

Com o adro da igreja totalmente lotado e ruas adjacentes, pessoas se acumulavam nas sacadas dos sobrados e pousadas para ver o espetáculo que teve 2h10 de duração, sendo amplamente aplaudido pelo público, um grande sucesso. A apresentação teve início às 20h37, acompanhada pelo Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, o Coral Lírico de Minas Gerais, a Cia. de Dança Palácio das Artes e os solistas convidados: Johnny França (Aleijadinho); Mar Oliveira (Manuel Francisco Lisboa); Guilherme Moreira (Thomás Antônio Gonzaga); Pedro Vianna (Alvarenga Peixoto); Lício Bruno (Lobo de Mesquita); Luanda Siqueira (Joana) e Mauro Chantal (Vicente Ferreira). A Ópera Aleijadinho foi composta por Ernani Aguiar, com libreto escrito por André Cardoso. A regência é do maestro Silvio Viegas e a direção cênica de Julianna Santos.

A peça se baseia em fatos da vida do mestre Antônio Francisco Lisboa, reconhecido internacionalmente como referência do Barroco Mineiro, cujas obras se encontram em diferentes cidades do Estado, especialmente em Ouro Preto e Congonhas. Após a estreia, a montagem cumpre temporada no Palácio das Artes, nos dias 14, 16, 18 e 20 de maio de 2022.

Aleijadinho integra a programação do Ano da Mineiridade, da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult), projeto criado para celebrar os elementos que compõem a assinatura mineira, com suas tradições, costumes e histórias e conta com a coorealização da APPA – Arte e Cultura. A peça tem como apresentadores do Programa o Instituto Unimed-BH e o Instituto Cultural Vale, como patrocinadores  Cemig, ArcelorMittal, Instituto Cultural Vale, AngloGold Ashanti, Usiminas e CSN, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Conta ainda com o apoio da prefeitura de Ouro Preto, Faop, Sesc MG, Revista Concerto, Instituto Usiminas e Instituto Hermes Pardini.

O Ano da Mineiridade será marcado por inúmeras iniciativas que celebram a diversidade da produção artística no Estado, aproximando municípios e promovendo uma maior transversalidade entre os setores da cultura e do turismo e de todos os profissionais envolvidos nesses segmentos.

A Ópera coloca em cena personagens que fazem parte da história de Minas Gerais e que sonharam com a liberdade por meio do movimento precursor de nossa independência, artistas fundamentais para a construção da nacionalidade brasileira. O cenário é a Vila Rica, capital de Minas Gerais, entre 1789 e 1814, momento da deflagração da Inconfidência Mineira. 

A trama percorre o adoecimento do artista, a rejeição do seu filho e termina com sua morte. Estruturado em três atos, o libreto baseia-se em fatos e cronologia reais da vida de Aleijadinho para estruturar a narrativa dramática. Nela estão presentes personagens não só da vida pessoal do escultor, como seu filho Manuel, sua nora Joana e seus escravos Firmino, Maurício e Januário, como também personalidades da vida política e cultural das Minas Gerais do século XVIII e XIX, como os poetas Thomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, o compositor Lobo de Mesquita e Vicente Ferreira, contratante da Irmandade do Bom Jesus de Matosinhos.

Os temas centrais da Ópera, mais que uma sequência de fatos da vida do Aleijadinho, são a desilusão, a perda, o abandono e a solidão. Ao longo das cenas, tais sentimentos se acentuam no protagonista. Primeiro, se dá a perda de seus amigos Inconfidentes, depois do colega músico Lobo de Mesquita, de um de seus escravos, Maurício, que morre durante o trabalho em Congonhas e Justino, que o abandona sem deixar vestígios. Por fim, o próprio filho, restando-lhe, no final da vida, apenas a nora Joana.

Segundo o secretário de Estado de Cultura e Turismo, Leônidas Oliveira, “a Ópera Aleijadinho vem ao encontro do nosso desejo de celebrar Minas Gerais. Ela condensa uma série de elementos que compõem a nossa rica diversidade artística e cultural. Por meio dessa montagem, vamos celebrar quem somos, celebrar nossas cidades, nossa arte e a nossa intensa e rica cultura, além de dar visibilidade à história desse grande artista negro, Antônio Francisco Lisboa, o maior representante do Barroco mineiro”, comemora.

A narrativa de Aleijadinho se passa em Vila Rica, atual Ouro Preto, capital de Minas Gerais à época, entre os anos de 1789, quando tem início a Inconfidência Mineira, e 1814. Há certas liberdades ficcionais na obra, como o encontro de Aleijadinho com os Inconfidentes em uma taberna de Vila Rica.

Contemporâneos do artista, como os poetas Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto e o compositor Lobo de Mesquita também se envolvem no enredo. A mescla entre o real e a fantasia, segundo o diretor musical e regente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Silvio Viegas, é um trunfo alcançado por André Cardoso.

Segundo o maestro, a autonomia criativa com a qual Cardoso forjou o texto da Ópera deve ser enaltecida. Embora tenha se baseado em fatos históricos, a Ópera não pode escapar do drama, do teatro e da poesia – ela é, também, tudo isso: “O que acontece no libreto nos coloca dentro de uma história absolutamente envolvente para quem está ouvindo, e a música foi pensada respeitando toda a questão dramática do texto. Mais do que simplesmente seguir uma linguagem moderna, o espetáculo se preocupa em emoldurar e potencializar toda essa carga emocional que o texto carrega. Transformar em som todas as emoções inseridas no texto: esse é o grande trunfo da Ópera”.

Filho de um arquiteto português com uma mulher escravizada, Aleijadinho foi alforriado ao nascer e aprendeu um pouco do ofício com o pai. Depois, torna-se escultor, entalhador, principal representante do Barroco mineiro e artista festejado para muito além das fronteiras deste país tropical.

“O que fica muito forte para mim dessa Ópera é a questão do legado em cima da obra do Aleijadinho, um artista reconhecido mundialmente. Por meio de sua arte, uma arte que é considerada revolucionária em vários aspectos, nos seus traços, na sua trajetória, que mesmo com a doença ele seguiu fazendo como uma grande missão e com caráter de libertação. É um grande legado”, observa Julianna.

A questão da ancestralidade também não ficou de fora da montagem. “Abrimos a Ópera com a coreógrafa e bailarina de dança afro Júnia Bertolino em uma performance de lundu como se fosse para abrir caminhos. Fui tentando multiplicar na encenação essa ideia de legado”, completa a diretora cênica.

O momento é de celebrar. Silvio Viegas diz que a estreia e a temporada no Palácio das Artes são históricas e marcantes para a cultura brasileira. “A gente percebe a felicidade, a consciência e a euforia de todos que estão envolvidos no projeto. Todos percebem a importância desse espetáculo”, pontua o regente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.

Para Juliana Santos, a inédita “Aleijadinho”, que integra a programação do “Ano da Mineiridade”, da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult), reforça a tradição da Fundação Clóvis Salgado na produção operística brasileira. “É uma produção constante, não falha, há um compromisso com a Ópera. Especificamente sobre essa obra, ela fala do Barroco mineiro, de um artista mineiro bem no ano da celebração do bicentenário da Independência. ‘Aleijadinho’ tem uma potência”, frisa.

A história de vida de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, já foi transposta inúmeras vezes para a ficção em diferentes meios de expressão, faltava uma Ópera. Convencido das possibilidades dramáticas sobre a vida do escultor, André Cardoso rascunhou os primeiros esboços em forma de roteiro em julho de 2009, quando apresentou a ideia ao maestro e compositor Ernani Aguiar, que imediatamente se entusiasmou com o projeto. Com a proximidade dos 280 anos do artista, nascido em alguma data desconhecida entre 1737 e 1738, a ideia foi retomada e o libreto concluído em 2016, sendo repassado ao compositor. A proposta inicial seria de encenar a Ópera para celebrar os 300 anos de Minas Gerais, mas, com a pandemia, foi necessário adiar. Como o enredo se conecta diretamente com as comemorações dos 200 anos da independência do Brasil, a data foi alterada para 2022.

Na composição, o maestro Ernani Aguiar dialoga com a música da época, com as intervenções que realizou em uma obra de Lobo de Mesquita ao criar uma linha de canto para Aleijadinho. O maestro resgatou também o estilo das serenatas mineiras, como no dueto de Joana e Manuel Francisco, no primeiro ato, e no Prelúdio e no Interlúdio do terceiro ato.

A Ópera Aleijadinho

Compositor / Ernani Aguiar – Libretista /André Cardoso – Direção musical e Regência / Sílvio Viegas – Concepção e direção cênica / Julianna Santos – Orquestra Sinfônica de Minas Gerais – Coral Lírico de Minas Gerais – Companhia de Dança Palácio das Artes

Cenografia / Renato Theobaldo – Figurinos / Marcelo Marques – Iluminação / Ney Bonfante – Coreografia / Júnia Bertolino – Criação Artística – Arte e Vídeo / Angélica Carvalho.

 

Foto e texto: Petrônio Souza