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Cultura

FAZENDA BOA ESPERANÇA RECEBE FÓRUM DE ESCUTA

Ação do Projeto Afromineiridades ouve os grupos de congado de Belo Vale para criar ações de salvaguarda do patrimônio cultural

Representantes de Guardas de Moçambique de Belo Vale e Vargem de Santana, na zona rural da cidade, foram recebidas neste domingo (26/6) pelo Programa Receptivo e Educativo da Fazenda Boa Esperança — gerenciado pela APPA Arte e Cultura — para participar do Fórum de Escuta.

O evento é uma das ações do Projeto Afromineiridades para compreender e reconhecer as contribuições de grupos de matriz africana para a formação da cultura mineira.

Paralelamente ao Fórum, outros dois eventos completam a programação do Afromineiridades. O primeiro, ocorrido no último sábado (25/6), foi uma visita mediada ao Palácio da Liberdade, com enfoque na exposição “Leituras Negras e Africanidades”.

A próxima iniciativa será uma mesa temática intitulada “Políticas públicas de patrimônio cultural para Reinados e Congados em Minas Gerais, transmitida nesta quarta-feira (29/6) pelo canal da APPA no YouTube (www.youtube.com/c/APPAArteeCultura).

No mesmo dia 29, ainda acontece um Fórum de Escuta direcionado exclusivamente para representantes do segmento – também no canal da APPA no Youtube. É necessário retirar os ingressos antecipadamente na plataforma Sympla: www.sympla.com.br/produtor/appa.

Fórum de Escuta

O Fórum de Escuta do dia 26/06 foi um momento ímpar para ouvir e dialogar com mestres e mestras das culturas provenientes da ancestralidade africana, de modo a balizar e criar novas estratégias para as ações de reconhecimento e salvaguarda do patrimônio cultural de Minas Gerais.

“Viemos aqui para ouvir mais do que falar. Para entender as potencialidades e as dificuldades de cada grupo e criar um plano de salvaguarda”, afirmou Bruno Morais.

Os grupos participaram de uma dinâmica, iniciada com uma roda de conversa, seguida do apontamento em uma folha em branco de suas potencialidades e dificuldades para detecção das principais ações de salvaguarda.

Segundo a historiadora Letícia Reis, o Fórum faz parte de um conjunto maior de ações focadas no diálogo com três grupos: os reinados e os congados, os quilombos em contexto urbano e povos e comunidades de terreiros (leia-se umbanda e candomblé).

Breno Trindade da Silva, antropólogo e curador do Fórum de Escuta, salienta que, no caso de povos tradicionais, como os reinados e os congados, é por meio de espaços de escuta que se consegue identificar as demandas e, a partir delas, dar condições de salvaguarda adequada. No caso de Belo Vale e região, esses povos não têm muito acesso às reuniões virtuais e às políticas públicas de patrimônio.

Roda de conversa

Em uma roda de conversa, os representantes das Associação das Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário de Belo Vale e Associação do Congado Nossa Senhora do Rosário de Vargem de Santana discorreram sobre a urgência em perpetuar as tradições, as dificuldades em manter as entidades, a resiliência em continuar os festejos em formato virtual, mesmo no período de pandemia, e a importância de passar o legado às futuras gerações.

“Esse fórum é o reconhecimento da importância de se manter uma tradição”, afirma João Paulo César dos Santos, presidente da Associação Congado de Nossa Senhora do Rosário de Vagem de Santana. Para Grasiele Ribeiro, 33, rainha do rosário em Belo Vale, esse é um momento de poder de fala, não um chamado para uma apresentação, mas para ser ouvido”.

Joaquim Damas Neto, 69, e Antônio Matias Pinto, 77, veteranos da Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário de Belo Vale, fizeram questão de participar das conversas. Neto está na guarda há 50 anos como 1º capitão. É responsável, segundo ele, por comandar a guarda, marcar os ensaios e escolher a cor do uniforme — calça branca e camisa azul.

Ele se encantou com a manifestação cultural ainda pequeno ao ver a mãe como rainha e repassa a mesma paixão ao filho. O menino entrou no grupo, mas foi embora para Belo Horizonte para trabalhar e hoje mora em Portugal. Ele ainda lamenta a falta de dinheiro para o grupo viajar. “Temos muitos convites para apresentações, mas é tudo para longe e tudo é caro”, afirma.

O “compadre” Antônio Matias Pinto, 77, que comanda a associação de Belo Vale, relembra que começou a participar das festas aos 8 anos. “Enquanto estiver vivo, vou estar lá”, fala. Atualmente, a guarda de Belo Vale tem membros de 6 a 77 anos, como ele. A média de idade está na faixa dos 40.

Ele concorda com Ademir Fernandes Gonçalves, coordenador de projetos dos congados de Belo Vale e zelados de Santa Efigênia, que o maior desafio é irradiar essa mesma fé e paixão para os jovens. “Não adianta ter instrumentos, muitas viagens, se não tem gente para perpetuar a tradição”, lamenta Gonçalves. Ele cita Conselheiro Lafaiete, que já teve 12 grupos de congado e agora só tem 9.

Preconceito

Embora a mãe não fizesse parte da irmandade, a jovem Grasiele entrou na guarda por causa do pai, que era caixeiro, e da irmã. “Eu via minha irmã como rainha, vestindo aquelas roupas maravilhosas e ficava encantada”, conta. Grasiele recorda que encontrou por muito tempo críticas e resistências na escola onde estudava.

Hoje, ela se orgulha em ver as duas sobrinhas, uma de 14 e outra de 16 anos, mantendo a tradição da família. “As mulheres estão entrando com tudo na guarda. O congado é de vital importância, é onde eu me encontro. Antes a gente não tinha o poder de fala, de mostrar o congado como patrimônio cultural”, comenta.

A falta de informação, segundo Grasiele, gera preconceito e desconfiança. “Já tivemos o projeto de montar um congado-mirim, mas deparamos com questões familiares”, afirma. Por isso, ela considera importante diálogos como esse.

“O preconceito se encaixa no racismo e é estrutural. As pessoas não entendiam que “macumba” é um instrumento musical. O congado era associado a coisas macabras, com o tempo passaram a entender que só queríamos louvar, que é uma questão da religião, de ancestralidade”, afirma. “Hoje, nós somos a resistência para a existência”, resume.

Simbolismo

Romeu Matias, do Programa Receptivo da Fazenda Boa Esperança, considera muito importante pensar em políticas públicas que dialoguem com quem está na ponta para a salvaguarda desses grupos.

Mas é Ademir Gonçalves que resume bem o sentimento no final do encontro: “Nossos antepassados vieram aqui para esta fazenda, eram escravos, e não tinham voz. E vocês, hoje, vieram nos ouvir, nos dar voz”.

Para Charles Faria, 41, gerente de promoção da Fazenda Boa Esperança, essa ação é importante para a valorização e promoção da cultura afro em Minas. “A Fazenda Boa Esperança é esse espaço de escuta para a construção dessas políticas públicas de salvaguarda. É um local muito simbólico”, afirma.

Ambas as guardas mineiras comemoram neste ano datas importantes: no dia 7 de julho, o grupo de Belo Vale comemora 85 anos de existência e em 9 de outubro retoma de forma presencial as festividades de Nossa Senhora do Rosário. O evento festivo em Vargem de Santana ocorre uma semana depois, em 16 de outubro.

Potencialidades e dificuldades

Na dinâmica, os grupos concordaram que é importante manter as tradições, a união e a conexão, porque um abrilhanta sempre a festa do outro, mesmo daqueles localizados em municípios mais distantes. Também citaram a resiliência em manter as festas como ponto positivo, mesmo durante a pandemia do novo coronavírus.

As dificuldades apontadas também são comuns entre eles: a dependência do poder público para o transporte nas viagens, a falta de recursos para a realização das festas, hoje em torno de R$ 25 mil, e para a manutenção das sedes, a falta de educação patrimonial nas escolas, e as dificuldades em manter os grupos coesos e atrair os mais jovens para manter a tradição.

Também é importante, segundo Grasiele, investir em um figurino completo e bonito. João Paulo César Santos, 32, tem um filho de um ano e seis meses e já comprou um uniforme para o menino.  “Sou da guarda desde quando estava na barriga da mãe, que era rainha”, brinca. Ele abre um sorriso quando vê os irmãos, os primos e os sobrinhos participando do grupo. “Quem não participou e tem fé, quando entra nunca mais abandona!”, conclui.