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Cultura

CLARA NUNES: A MINEIRA COM MUITO SAMBA NO PÉ

Clara Nunes foi um fenômeno da Música Popular Brasileira. Oriunda de Minas Gerais, estado com pouca tradição de cantoras sambistas, ela se tornou, em um curto espaço de tempo, o mais expressivo nome do samba nacional, vindo a falecer prematuramente, aos 40 anos de idade, no Rio de Janeiro

Nascida Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, no município de Paraopeba, hoje Caetanópolis, cidade a 100km de Belo Horizonte, no dia 12 de agosto de 1942, Clara incorporou o sobrenome da mãe, Nunes, ao seu nome artístico no início de sua carreira.

Pesquisadora da música popular brasileira, de seus ritmos e de seu folclore, Clara Nunes foi considerada uma das maiores e melhores intérpretes do país. Clara foi apontada pela conceituada revista Rolling Stone como a nona maior voz brasileira e a quinquagésima primeira maior artista brasileira de todos os tempos, sendo a primeira cantora brasileira a vender mais de cem mil discos, derrubando um tabu na época.      

Conhecedora das músicas, danças e das tradições africanas, ela se converteu à umbanda e levou a cultura afro-brasileira para suas canções e vestimentas. Isso fez dela um ícone, uma referência, sendo ainda uma das cantoras que mais gravaram canções dos compositores da Portela, sua escola de samba do coração. 

O início de tudo

De origem humilde, a mais jovem dos sete filhos do casal Manuel Pereira de Araújo e Amélia Gonçalves Nunes ficou órfã aos seis anos de idade. Em 1952, ainda menina, venceu seu primeiro concurso de canto organizado em sua terra natal, interpretando “Recuerdos de Ypacaraí”. 

Forçada a se mudar para Belo Horizonte na adolescência, Clara trabalhou como tecelã em uma fábrica de tecido, quando começou a participar de programas de auditório. 

Aos finais de semana, participava de ensaios de coral de igreja, no bairro Renascença, onde vivia com os irmãos, primos e tios na capital mineira. Acabou se afastando do catolicismo e, junto de sua amiga de infância, começou a frequentar centros espíritas e converteu-se ao kardecismo, onde conseguiu algumas cartas psicografadas dos pais. Na época, conheceu o violonista Jadir Ambrósio, conhecido por ter composto o hino do Cruzeiro. Jadir levou Clara a vários programas de rádio, como “Degraus da Fama”, no qual ela se apresentou com seu nome de batismo, Clara Francisca.

Durante três anos seguidos foi considerada a melhor cantora de Minas Gerais. Clara também passou a se apresentar como crooner em clubes e boates da capital mineira e chegou a trabalhar com o então baixista Milton Nascimento, que tocava na noite belo-horizontina com o amigo de infância Wagner Tiso. 

Em 1965, mudou-se para o Rio de Janeiro, morando em Copacabana. No Rio passou a apresentar-se em vários programas de rádio e televisão. Clara também passou a se apresentar em escolas de samba, clubes e casas noturnas do subúrbio carioca, onde acabou conhecendo terreiros de religião de matriz africana, optando por deixar o kardecismo e se converteu ao candomblé.

Os discos

Seu primeiro disco, “A Voz Adorável de Clara Nunes”, foi um grande fracasso comercial. Lançado em 1965 pela gravadora Odeon, Clara, por insistência da gravadora, registrou nesse primeiro trabalho sambas e boleros. 

Em 1968, gravou “Você Passa e Eu Acho Graça”, seu segundo disco na carreira e o primeiro onde cantou sambas. A faixa-título foi seu primeiro grande sucesso radiofônico. No ano seguinte, a Odeon lançou “A Beleza Que Canta”, LP em que interpretou “Casinha Pequena”, uma canção de domínio público. Ainda em 1969, ganhou o primeiro lugar no “I Festival da Canção Jovem de Três Rios”.  Seu nome já ganhava expressão nacional como cantora de sambas. 

Uma verdadeira sambista

Em 1970, Clara se apresentou em Luanda, capital angolana. No ano seguinte gravou seu quarto LP, no qual interpretou “Ê Baiana”, música que obteve considerável sucesso no carnaval de 1971, e “Ilu Ayê”, samba-enredo da Portela. Na capa do álbum, a cantora mineira fez um permanente nos cabelos pintados de vermelho e passou, a partir daí, a se vestir com turbante e vestes brancas, roupas que remetem às religiões afro-brasileiras. Essa se tornou marca registrada. 

Em 1972 consolidou-se nacionalmente como uma das mais importantes cantoras de samba, com o lançamento do LP “Clara Clarice Clara”. Em 1973, o disco “Clara Nunes” foi um marco. Devido ao sucesso alcançado, a cantora estreou o espetáculo com Vinicius de Moraes e Toquinho: o show “O poeta, a moça e o violão”, no Teatro Castro Alves, em Salvador. Clara foi convidada pela Radiotelevisão Portuguesa para fazer uma temporada em Lisboa. Depois, percorreu alguns países da Europa, como a Suécia, onde gravou um especial ao lado da Orquestra Sinfônica de Estocolmo para a TV local, consolidando sua carreira internacional. 

Em 1974, Clara atuou ao lado de Paulo Gracindo, um dos maiores nomes da dramaturgia nacional, no icónico espetáculo “Brasileiro, Profissão Esperança”, espetáculo de Paulo Pontes, referente à vida da cantora e compositora Dolores Duran e do compositor e jornalista Antônio Maria. O show ficou em cartaz no Canecão até 1975 e gerou o disco homônimo. No mesmo ano, casou-se com o compositor e poeta Paulo Cesar Pinheiro, formando um dos casais mais representativos no cenário artístico nacional. 

Com discos sendo lançados anualmente e sucessos repetidos nas rádios brasileiras, Clara se consolidou como uma das mais importantes e populares artistas do Brasil na década de 1970, com inúmeras músicas obtendo o primeiro lugar entre as mais tocadas nas rádios brasleiras.  

Ao lançar o álbum “Guerreira”, em 1978, no qual interpretou vários ritmos brasileiros além do samba, Clara passou a ser assim chamada popularmente, a Guerreira.i Em 1979 participou do LP “Clementina”, de Clementina de Jesus. No mesmo ano, se submeteu a uma histerectomia, após sofrer seu terceiro aborto espontâneo, por causa de miomas que possuía no útero, que estavam comprometendo sua saúde. 

Clara tentou diversos tratamentos, tanto médicos quanto espirituais, para se tornar mãe, mas não obteve respostas satisfatórias. Por nutrir obsessão pela maternidade, a impossibilidade definitiva de engravidar a fez sofrer muito. Nessa época, doou para um orfanato toda a coleção de bonecas que tinha guardado desde a infância, pois sonhava em ter uma filha para presenteá-la. O fato de não ter conseguido gerar um filho causou fortes abalos emocionais, superados pela entrega absoluta à carreira artística, fazendo-a interpretar com muita inspiração músicas de intensa carga emocional.

Últimos anos de vida

Em 1980, Clara gravou o álbum “Brasil Mestiço”, outro grande sucesso nacional, em que registrou a canção “Morena de Angola”, de Chico Buarque, uma das músicas mais marcantes de seu repertório. A cada ano, Clara participava de turnês internacionais, representando a cultura brasileira ao redor do mundo e mostrando a força da Música Popular Brasileira. 

Um longa agonia

No dia 5 de março de 1983, Clara Nunes se submeteu a uma cirurgia simples de varizes, mas acabou tendo uma reação alérgica. Clara sofreu parada cardíaca e permaneceu internada por 28 dias na UTI da Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Seu martírio teve repercussão nacional, sendo acompanhado e noticiado dia a dia. 

Por sua internação, Clara foi vítima de uma série de especulações que circulavam nos meios de comunicação sobre o real motivo de estar em um hospital, entre elas a de inseminação artificial, aborto, tentativa de suicídio, uso de drogas e violência doméstica, todas comprovadamente falsas.

Na madrugada do sábado de Aleluia do dia 2 de abril de 1983, a quatro meses de seu 41º aniversário, Clara Nunes foi declarada clinicamente morta, em razão de choque anafilático. 

Uma sindicância foi aberta pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro na época e foi arquivada, o que geraria por muitos anos suspeitas sobre as causas da morte da cantora. 

O velório e sepultamento de Clara Nunes foi uma das maiores comoções nacionais. Seu corpo foi velado por mais de 50 mil pessoas na quadra da escola de samba Portela. O sepultamento no tradicional Cemitério São João Batista foi acompanhado por uma multidão de fãs e amigos. 

Homenagens

Em sua homenagem, a rua Oswaldo Cruz, onde fica a sede da Portela, sua escola de coração, recebeu seu nome. Em 1984, com o enredo “Contos de Areia”, a Portela faz uma homenagem à Clara Nunes, sendo campeã naquele ano, juntamente com a Estação Primeira de Mangueira.

Em 1986, a Velha Guarda da Portela interpretou “Flor do Interior”, uma das muitas músicas feitas em homenagem à Clara Nunes. Outro compositor, Aluísio Machado, da Império Serrano, também compôs “Clara”, em homenagem à cantora. 

Em 1988, a irmã mais velha de Clara, Maria Gonçalves, reuniu várias peças do vestuário, adereços e objetos pessoais da cantora e criou uma sala para abrigar o acervo de sua obra, em espaço anexado à creche que leva o seu nome, na cidade de Caetanópolis.

Em 1989, a gravadora EMI-Odeon produziu a coletânea “Clara Nunes, O Canto da Guerreira”. Vários discos e coletâneas foram lançados nos anos seguintes, até que em 2006 foi encontrada mais uma interpretação inédita de Clara Nunes. A composição “Quem Me Dera”, de Maurício Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho, foi incluída no álbum póstumo de Maurício Tapajós. 

Em 2007, o jornalista Vagner Fernandes lançou a biografia “Clara Nunes – Guerreira da Utopia”, que trouxe entrevistas com vários compositores e intérpretes, como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Alcione, Hermínio Bello de Carvalho, Hélio Delmiro, Milton Nascimento, Monarco e Paulo César Pinheiro, além de familiares e amigos.

Em agosto de 2006, a prefeitura de Caetanópolis lançou o 1º Festival Cultural Clara Nunes, com o objetivo de desenvolver a cultura no município e também resgatar a obra da cantora. Em 4 de agosto de 2007, na abertura do 2º Festival, a Prefeitura de Caetanópolis inaugurou a Casa de Cultura Clara Nunes, onde havia sido o cinema da cidade e onde Clara se apresentou pela primeira vez. A Casa de Cultura Clara Nunes, administrada pela Secretaria Municipal de Cultura, é local onde se realizam oficinas de dança, música, pintura e teatro, oferecidas gratuitamente à população.

O Instituto Clara Nunes foi fundado em 19 de maio de 2005 pela irmã de Clara, Maria Gonçalves, e está instalado no mesmo prédio onde funciona a Creche Clara Nunes e o Artesanato Ponto de Luz, que produz tapetes cuja venda ajuda na manutenção da Creche. O Instituto foi criado para administrar e zelar pelo acervo da cantora. Em agosto de 2012, foi inaugurado o Memorial Clara Nunes, com a exposição do acervo.

No dia 23 de maio de 2018, a Portela, escola de samba de coração de Clara, anunciou o enredo em homenagem à cantora para o carnaval de 2019: “Na Madureira Moderníssima, hei sempre de ouvir cantar um sabiá”, assinado pela carnavalesca Rosa Magalhães.

Instituto Clara Nunes

A principal realização do Instituto Clara Nunes é, sem dúvida, o Memorial Clara Nunes, inaugurado em 2012. 

Para os 80 anos de Clara, o Instituto anuncia a sua reabertura para o dia 12 de agosto, com uma nova exposição sobre a vida e obra de Clara. 

O Canal Brasil também preparou uma homenagem, com a exibição da série “Clara” – que reestreou na segunda, dia 1º de agosto, às 21h, e mostra como a cantora revolucionou a indústria da música no Brasil. São cinco episódios que contam a trajetória da artista.

www.institutoclaranunes.com